quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Adoráveis mulheres
Aquela família era o protótipo da família ideal, um pai e uma mãe que se amavam, e dois filhos lindos, um menino e uma linda menina com quem a mãe gostava de brincar de boneca. Moravam em zona nobre. Foi em uma época que uma importante estatal se instalou na capital e para estimular os seus funcionários ofereceu várias regalias, entre estas o financiamento de casas de alto padrão como forma de compensação pela mudança de Estado e também um aumento significativo no salário. Foi com toda essa mordomia que a família se instalou na nova cidade. Foi a explosão imobiliária e demográfica e a pacata capital, com suas praias e topografia linda, logo se tornou o paraíso na terra. Como sempre tem um porem, com a chegada do alto escalão também chegaram os alpinistas sociais. Foi simples, os jovens funcionários da empresa chegaram ao topo muito rápido sem tempo para digerir todas as oportunidades, ficaram deslumbrados e passaram a ser assediados pelas mulheres disponíveis que buscavam uma forma de melhorar seu status. Para os homens ser fiel não era mais ponto de honra e logo ter casos foi se tornando algo corriqueiro. Eles até gostavam de alardear seus casos extraconjugais. Coisa bem de macho contar para o outro macho que estava tendo um caso. E foi aí que a jovem mulher ficou sabendo do caso de seu marido que negou tudo mas que logo estava caindo em tentação. E assim ainda viveram juntos por mais alguns anos, até que o casamento acabou. Tudo foi dividido, até os talheres e a samambaia, fora as colchas de crochê da mamã da cabeça do casal. Com o dinheiro da venda da casa que ainda não estava quitada, eles compraram dois pequenos apartamentos. O ex-marido foi morar com a eleita e a ex-mulher ficou com os dois filhos. Foram levando a vida meio aos trancos, com as crianças em idade escolar. Foram anos de penúria. Isso durou até a entrada do filho na universidade. O rapaz foi estudar medicina. O pai do rapaz viu aí a oportunidade de fazer uma pequena economia, e propôs ao filho ir morar com ele em troca de um carro. O rapaz concordou, a mãe foi avisada do acordo e não concordou pois a filha mais nova ainda estava cursando o colegial e as suas despesas eram muito grandes. A mãe implorou para que o filho ficasse, e se não por amor, mas por compaixão porque ela tinha um sub emprego que não dava sequer para pagar o aluguel do imóvel onde estavam morando; porque para fazer frente as despesas com a educação dos filhos, ela vendeu o pequeno apartamento que comprara na época da separação. O filho não se compadeceu e foi morar com o pai. A avó das crianças para ajudar a filha, como recebia uma pensão do falecido marido, foi morar junto. E foi este arranjo que possibilitou a entrada da neta na faculdade. A menina foi estudar bioquímica e o pai mais uma vez apareceu para propor a compra de um apartamento financiado ou carro. A moça estava morando em uma cidade próxima dividindo um sala e quarto com mais três meninas, mas não aceitou qualquer oferta. Enfrentou anos de penúria, via a mãe a avó passarem a morar em um quarto alugado em casa de uma família. Arranjou trabalho na faculdade onde estudava, era uma excelente aluna e concluiu o curso com louvor. Nunca se reconciliou com o pai ou o irmão que se formou em medicina e foi morar no interior paulista sem procurar pela mãe ou pela irmã. O jovem médico conheceu um enfermeiro durante o curso de medicina e se apaixonou. Depois de formados foram morar juntos. Ele era muito grato pelo que o companheiro fez por ele. Durante o curso quem deu suporte financeiro para que ele conseguisse estudar e mesmo depois quando foi fazer residência, foi o seu companheiro, porque o jovem foi deixado à deriva pelo pai. A bioquímica está muito bem financeiramente e recebeu uma proposta irrecusável. A moça é uma vencedora e as três mulheres continuam vivendo juntas. A avó, aconselhada pelo médico amigo da família, foi fazer um curso de canto e conheceu um maestro, senhor de setenta e três anos, que faz um trabalho social muito importante junto a jovens carentes. Houve uma empatia entre os dois e ela aos setenta anos está namorando. Não pensa em casar, ele até tentou convencer a eleita, mas segundo ela, como estão vivendo já está de bom tamanho, e que o casamento não vai fazer diferença, é só mera formalidade. A filha sofreu duas cirurgias no coração, mas já está recuperada. Foi aposentada por motivo de saúde, mas está começando um pequeno negócio. Ela está comercializando arte sacra e artesanato estilo barroco fabricado em Minas Gerais. Conheceu um delegado da polícia federal aposentado, estão namorando e ela não deseja casar, e também não deseja morar junto. Está feliz e isso é que importa. A neta é pesquisadora, faz parte da equipe de famoso cientista norte americano. Aos trinta e dois anos não pensa em casamento, mas está de namoro assumido com um cientista que vem com freqüência ao Brasil só para acompanhar sua amada. O irmão da doutora continua morando no interior de São Paulo com o seu companheiro. O pai dos dois está com saúde debilitada por conta do alcoolismo e como saiu da empresa onde trabalhava só para receber o dinheiro da demissão incentivada, hoje sem aposentadoria vive de uma pensão que sua ex-mulher lhe dá espontaneamente. Continua no mesmo apartamento apertado. Teve mais duas filhas que são vendedoras de lojas no shopping e não puderam estudar. Não se sabe se foi por falta de verba ou de estímulo, mas, seja lá o que for, a vida para ele foi bem mais difícil, caráter fraco, se enterrou no alcoolismo, e vive a margem da vida, sem o carinho e o respeito de seus familiares, recebendo ajuda financeira justamente de onde menos se esperava. Explica-se: aquelas mulheres são grandes guerreiras, elas sofreram mas não desistiram de conquistar o seu lugar ao sol.
As alianças
Ela olhou para as próprias mãos e deu um sorriso meio sacana. Não tinha ainda as manchas da senilidade e ela pensou, como sempre gostou de anéis, e não usava aliança. Fez as contas e pensou, pra mais de trinta anos. Essa foi sua primeira transgressão. Lembrou como se fosse hoje. O marido começou a tirar a aliança, as vezes esquecia nos bolsos, na pia do banheiro, na mesa de cabeceira. Ela não disse nada. Não fez qualquer cobrança porque sabia que o encanto estava acabando e num gesto de rebelião, tirou a sua também. Para ela a aliança era um símbolo sagrado de amor, respeito, fidelidade. Era um elo muito forte, infinito. E lembrou das palavras do pai que costumava dizer: formiga quando quer se perder cria asas. E ela sofreu. Só quem já foi traído é que sabe e naquele momento seu castelo de cartas desmoronou. Chorou rio de lágrimas, de repente olhou para o relógio. Era a hora de pegar as crianças na escola. Lavou o rosto, fez a maquiagem, colocou a mascara na face e foi alegre buscar as crianças. Pois assim é que deveria ser. E daquele dia em diante só tirava a mascara quando estava só e quando estava com os seus, voltava a usar a mascara. E aprendeu que não seria preciso procurar vestígios de traição pois o homem se entrega e como se entrega. Nessas artes a mulher se sai melhor, ela finge melhor. Ele fica ridículo, passa a agir como garotão, passa a falar com a mulher sobre fulana que é ótima funcionária, fulana que está com a filha doente, fulana que ultimamente vem sentindo muitas dores de cabeça e ela passou a mão na testa a procura de alguma saliência, mas não encontrou nada, estava bem lisinha. Nunca mais usaram aliança. Muito tempo depois, do nada, ele apareceu com uma aliança muito esquisita, fininha, de ouro amarelo, e trazia outra no dedo. Os filhos ficaram emocionados. Ele fez uma entrega solene, só pediu a ela que não comentasse com as amigas. Era em segredo que ele colocara a aliança no dedo dela. A filha muito emocionada disse, viu mamãe como papai te ama? E ela disse sei... E soube por intuição que a aliança não era com ela. Aí lembrou que nas bodas deles, ela não queria festa, muito menos qualquer comemoração religiosa e quando soube que os amigos estavam fazendo uma festa surpresa para eles, com missa e tudo o que tinha direito, ficou vermelho, como todas as criaturas de pele clara ficam na hora do ódio. Ela lembrou que o padre poderia chamar o casal para a benção das alianças e saiu para comprar. As mais leves e fininhas que encontrou. Afinal para que gastar vela com mal defunto. Mas ela foi linda a festa. Usou um vestido perola, com a pala toda bordada, de cintura baixa, com laço de fita. Sapatos dourados e na cabeça um lindo arranjo prendendo os cabelos numa espécie de coque, dourado com perolas. Parecia uma jovem noiva foi o que comentaram. E foi justamente aí que ela começou a transgredir. Passou a amar os gatos, não o gato homem, gato bichano mesmo. Tudo começou no dia em que a filha de um amigo dele apareceu com um gato amarelo e ela adotou. Depois, quando mudaram de residência, ela ganhou um gatinho preto. Quando ele viu o gatinho preto disse a ela: suma com esse bicho imediatamente. Ela ficou magoada com o tom de voz e a prepotência, era o domínio do macho sobre a fêmea. E ela não gostou de nada disso e começou a trazer para casa todos os bichanos que encontrava abandonado e a família foi aumentando. Todas as vezes que em que ele esquecia de vir para casa ou mandava ela esperar por ele no cinema e não aparecia, ou não atendia o celular, viajava e voltava com presente que recebia dos amigos, eram cd’s de músicas de intérpretes que ela não gostava, não faziam o seu estilo. Aí ela arranjava o gato. Certa ocasião, desfazendo a mala dele, separando as roupas para a empregada lavar, ela notou que o fecho da calça estava quebrado e o bolso da camisa rasgado. Ela pensou, ele deve gostar de amor selvagem mas não precisava rasgar as roupas. Saiu e arranjou mais um gato. Chegaram a criar 22 gatinhos, todos muito bem tratados, porque ela sabia que no bicho homem não dá pra confiar e fez uma aliança com os animais; cuidava deles e em troca recebia lealdade. Hoje ela só tem 16 gatos, os outras já partiram. E, por ironia do destino, ele deve a vida dele a um dos gatos dela. Se não fosse o gato branco, hoje ele estaria comendo capim pela raiz. Só que agora ela está com muita vontade de começar uma criação de furões. Até já imagina, uns dez furões soltos pela casa. E já está aceitando doação.
Nosso maior poder pessoal é a liberdade de escolha.
Nosso maior poder pessoal é a liberdade de escolha.
As amigas
São cinco amigas. Tem a que tem olhos de gata, tem a que vive freqüentando motel, tem a perua que gosta de receitas para depois do amor, tem a que é artista e tem a Xuxa morena. Encontram-se duas vezes por semana para fofocar. A que tem olhos de gata é louca por um padre e são íntimos. A que freqüenta motel é casada com um homem muito bonito, aliás, fazem um casal bonito, são mais jovens. A perua é madrasta da que freqüenta o motel e quando se encontram a conversa gira em torno de missa, coral, sexo, receitas, moda, enfim, assuntos gerais. Mas, o assunto mais discutido é o sexo e o desempenho sexual dos maridos. A que freqüenta motel gosta de apontar as vantagens desses encontros e também as novidades, tipo cadeira que gira, poltrona erótica, colchão d’água, piscina, pista de dança com espelhos no teto e no chão, uma loucura. Aqui cabe um porem, ela mora em um apartamento pequeno, tem um filho de 18 anos que gosta de trazer a namorada pra casa. Então a solução é eles irem para o motel. A perua é casada com um senhor que é pai da que freqüenta motel. Ele está na casa dos 60 e ela diz que tem 58 anos. Diga-se de passagem, a três anos a vela do bolo de aniversário dela tem o mesmo número. Mas ela diz que a performance do marido é de deixar muito garoto no chinelo e gosta de fazer petiscos para depois do amor. Eles têm um filho de 20 anos que também trás a namorada em casa, mas a casa é grande e ninguém tira a liberdade de ninguém. A Xuxa morena gosta mais de transar na casa dos outros e brincar de esconde-esconde com os donos das casas. A que tem olhos de gata, no aniversário dela, ganhou de presente de uma das amigas, um vibrador e roupas sexy e como não tem marido, a amiga achou que este era o presente ideal, mas ela disse que ainda não usou porque melhor mesmo é o padre e se fecha em copas... A artista é casada com um homem que ela tem certeza pensar que as mulheres tem inveja do órgão masculino só que o que ele não sabe é que as mulheres fazem sexo com prazer até os oitenta e só querer e ter flexibilidade. Essa não conta nada para as amigas só ouve as vantagens que elas tem para contar. É comum elas dizerem que as vezes tem que estar escapulindo para dar uma trégua tal o apetite sexual deles, são insaciáveis. Mas teve um dia que a artista foi obrigada a contar as peripécias dela e as amigas, conta, conta, conta... Aí ela meio encabulada pensou e soltou essa, nós fazemos sexo só na lua cheia porque é uma lua afrodisíaca, fazemos com direito a champagne, morangos e pensou, o que é mesmo que vi no filme Uma Linda Mulher, na cena em que a Julia Robert está na fase de prostituta deitada no tapete do hotel assistindo televisão e tomando champagne e comendo morangos. Aí ela lembrou, ah.., ela usava botas longas e mini-saia e ela soltou mais essa, uso botas vermelhas de paetês até os joelhos, calça corsário e espartilho negro. Afinal não era nem boba de dizer que usava mini-saia e botas de cano longo. Todas acharam o máximo e já estão até na fila da bota. Só que o que ela não disse é que sexo, só na lua cheia, a cada cinco anos. Mas, enfim, cada um fantasia como pode. Foi aí que a artista lembrou, uma ocasião quando foi viajar com o marido para uma festa de aniversário da sobrinha, ficaram hospedados num hotel, daqueles de rede internacional com nome de uma famosa corrida de carros. Quando eles saíram da festa e chegando no hotel, entraram pela garagem para estacionar. Isso era por volta das 23:30 horas e estava uma mulher loura, de cabelão crespão, de casaco xadrez rosa e branco, bolsas e botas rosa, e estava conversando com o funcionário do estacionamento; dava para notar que ela estava a procura de programa e a artista disse ao marido, enquanto você estaciona eu vou comprar água mineral na portaria e ele respondeu, deixa que eu compro. E praticamente tirou-a de dentro do carro e jogou-a dentro do elevador e ainda gritou, espera lá em cima. Ela esperou, duas horas e meia, contadinho no relógio, foi quando ele chegou mal humorado, se queixando do transito, que era pra ela não fazer nenhuma pergunta e foi direto para o banho, alegando que teve que atravessar a cidade inteira para comprar uma garrafa de água. A artista, que tem muito medo de doenças venéreas, pegou a garrafinha com repugnância e lavou bem lavada, só depois abriu. A água era para tomar medicamentos, um calmante e um comprimido para dormir. Mas isso ela não contou para as amigas também porque esse tipo de humilhação a gente esconde bem escondidinho dentro de um baú, lá no fundo da memória e se algum dia abrir esse baú, será o mesmo que abrir a caixa de Pandora. Pandora não deveria abria a caixa, em hipótese alguma, mas, como toda a mulher, era curiosa, ela abriu e da caixa saíram todas as misérias do mundo. Na volta da viagem ela fez o marido acompanhá-la ao shoping, coisa que ele sempre detestou, e comprou uma bota rosa, rosa bebê, que custou os olhos da cara. Foi realmente muito cara, só um sapateiro famoso poderia ousar uma bota rosa igual e um casaco estilo channel, xadrez rosa. Ele pagou pelos dois. A idéia dela era se fantasiar de prostituta, mas pensou, pensou, e se deu o respeito. A bota ela usou uma vez com uma calça cinza e camisa branca e o casaco ela está querendo vender para não ficar no prejuízo. A bota fica como lembrança porque certas coisas uma mulher jamais deve esquecer. Quanto aos encontros com as amigas, continua sendo duas vezes por semana e a conversa, como sempre, é sexo, homem bonito, homem que tem boa pegada, gostoso, é lógico que nessa entra o padre, o sexo feito na casa dos outros, as comidas para depois do amor, o último motel que foi inaugurado. Só que dias desses, a que só freqüenta motel apareceu com uma pereba no braço e acha que pegou lá no motel que acaba de ser inaugurado. E o médico disse que era provável que não tenham trocado as toalhas de banho ou os lençóis e que de agora em diante é melhor que ela leve os seus lençóis e toalhas de banho. Aí a artista ficou pensando, ai que preguiça... E continuou ouvindo e pensando na próxima fantasia que vai inventar. Até já tentou usar a roupa de dragão da neta que tem quatro anos, pelo menos a parte de cima, só para tirar uma foto e mostrar para as amigas e dizer: essa fantasia é para a lua minguante que deve ser menos afrodisíaca para compensar os excessos da lua cheia, senão não há quem agüente. E a fantasia de dragão ela vai dizer que pediu emprestado ao dragão de São Jorge.
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