domingo, 23 de janeiro de 2011

Anabel

Durante minha estadia no sul fui ao shopping mais elegante da capital para ver como o povo anda se vestindo. Passei em frente a vitrine de uma loja chiquerrima e vi um acessório que saiu em uma reportagem de moda e fez a cabeça de minha filha. Entrei na dita loja e não perguntei o preço porque é daquelas lojas onde não se pergunta nada sob pena de te jogarem pela porta afora. Lá quem ousa entrar compra e não faz perguntas. Se você perguntar é porque não pode pagar. Entendeu? Pois comprei o tal acessório e paguei quatrocentos e cinqüenta reais. Saí da referida loja com um belo embrulho de presente e uma notinha de caixa na qual eu constava como categoria de cliente “turista”. Na porta da loja eu estava tão distraída que sequer notei a jovem loira com um senhor caquético. O senhor em questão usava um vestuário esportivo e era muito elegante e se apoiava no braço da jovem loira e na outra mão trazia uma bengala com castão de ouro. Na hora me lembrei de ter visto tal bengala em elegante loja parisiense onde comprei apenas um lenço e não constava na nota que era “turista” pois a jovem me recebeu fez a maior festa. Fez questão de me apresentar para o seu namorado. Estão juntos desde que se encontraram em um evento onde ela foi trabalhar como uma das centenas de recepcionistas. Pois a jovem era a Anabel Betin figura que conheci quando fiz um trabalho de laboratório em uma casa de caridade. A moça é filha de um dos senhores com quem trabalhei. A jovem tem histórias cabeludas no seu currículo. Era gordinha, mal apanhada e educação zero. Pois não é que Anabel emagreceu,cortou o seu cabelão que chegava até a cintura, fez um Chanel lindo, não usa mais seus tapa sexo, nem botas de pelinho e cores de sorvete. Devo admitir que Anabel Betin aboliu a vulgaridade em favor dos conjuntinhos estilo Chanel. Ela estava usando uma calça jeans com camisa branca e um casaqueto Chanel, no pescoço correntes e perolas, discretos brincos de pérolas e um relógio Belmercier de ouro amarelo lindo! No lugar de botas de plataforma e salto Anabela, umas sapatilhas delicadas cor bege com camélia preta. A bolsa que ela estava usando é aquela famosa francesa que custa vinte e seis mil euros e o período de espera é de mais ou menos vinte e quatro meses. Isso tudo ela fez questão de me mostrar e pedir a minha aprovação; segundo ela você sabe o que é bom e conhece grifes famosas. A bolsa de carregar o Cherry é da Vuiton. Estávamos sentados no café do shopping já a mais ou menos uma hora quando ela, ao me contar da bolsa de cãozinho, pediu para o vovô, ou melhor o namorado, amor você pode ligar para o David e pedir para ele trazer o Cherry para conhecer minha amiga. Minutos depois o David apareceu carregando a famosa bolsinha com o Cherry. Achei lindo o Cherry e o David é lindíssimo. E Anabel falando pelos cotovelos para me contar sua vida de princesa. Lá pelas tantas ela saiu com essa: o que você achou do meu gato velho? Fiz sinal que ele poderia estar ouvindo, mas ela me disse que ele é completamente surdo. Sua surdez e senilidade, porém ela me disse estar muito acostumada a sua nova vida de princesa. Lá pelas tantas ela olhou para a minha sacola de compras e me perguntou você ainda compra nesta loja? Respondi que sou freguesa turista. Ela achou muita graça e me disse que estava ali por acaso pois a dona da loja costumava mandar a coleção da temporada em sua casa para que ela faça as escolhas mais à vontade. Notei que Anabel está mais à vontade em todos os sentidos! Tirando sua precária educação, tudo nela é reluzente, suas jóias, roupas, bolsas, até seu cachorro usa uma pulseira Tiffanis no pescoço. Perguntei pela sua mãe ela me disse que ela está morando com seu irmão em um apartamento bem jeitoso em zona nobre. Perguntei e o futuro Anabel? Você está se preparando para quando ele chegar? Ela sorriu e me respondeu: ai,ai, ai, você é tão preocupada com o futuro, eu vivo o dia de hoje! Olhei para o vovô, ou melhor, para o namorado de Anabel para me despedir, ele estava recostado na poltrona do café cochilando. Anabel me convidou para jantar em sua casa, quer que eu conheça a sua nova residência que é onde foi uma famosa mostra de decoração que o vovô, digo que o namorado, comprou com todos os detalhes decorativos, até as porcelanas de famoso antiquário que estavam expostas na lojinha ela comprou. Perguntei: Anabel o que você vai fazer com uma lojinha dentro de sua casa? Ela me respondeu com toda singeleza, é o local da casa onde passo mais tempo. Algumas vezes acordo no meio da noite e vou para lá, fica próximo da garagem e o David mora nos fundos. Anabel juntou o útil ao agradável literalmente! Na nossa despedida o vovô namorado ainda dormia e ela Anabel me explicou que é por conta de certo medicamento. Não pude me despedir dele. Anabel me puxou para o lado e me pediu, por favor, na sua próxima vinda no sul promete que vai me procurar e nos visitar, sei que ele vai ficar feliz sabendo que tenho amizades respeitáveis. Respondi, ora bolas Anabel você é uma moça respeitável. Ela deu risada e me respondeu, eu preciso me cercar de pessoas respeitáveis para impor um certo respeito e ser aceita no meio dele. Me despedi e deixei Anabel, Cherry, o vovô namorado dormindo e David sentados na mesa do café. David é motorista e enfermeiro do namorado avô de Anabel que aboliu o Betin de seu nome. Segundo ela só Anabel fica mais chic. Saí dali cabisbaixa pensando na vida como ela é. Nossa, estou rodrigueana! Anabel está com vinte e dois anos e já tem uma longa estrada percorrida. Saiu da boca do lixo, nasceu em um ambiente provisório, morando todos os seus familiares no mesmo terreno em casinhas grudadas. Cresceu na mesma casa onde sua mãe nasceu. Cada casinha tem, até hoje, um quarto, e nesse quarto ela dormia com seu pai, mãe e irmão, A promiscuidade reinava ali. Porem se o vovô namorado partir dessa para melhor, Anabel tem uma longa experiência e vai se dar bem. Logo arranja outro vovô namorado! Que se não teve vida dura é tão promíscuo quanto Anabel que é fogo fatio!

Pérola da praia

Conheci Pérola na praia vendendo brincos. Negra retinta de cabelos sarará, moça muito simpática, mas mal ajambrada. Eu gostava de conversar com ela e ela conversava com a praia em toda a sua extensão. Dos brincos ela passou a fazer trancinhas tererê, ela carregava continhas, linhas, tudo muito colorido, espelhos, enfim, um arsenal sem tamanho. Andava sempre em companhia de suas irmãs, moças honestas e ficava encantada com o dom de Pérola. Ela separava pequenas mechas de cabelo e trabalhava com contas e fios. Durante muitos anos ela fez isso; ela já era a minha amiga da praia. Eu não sabia que ela tinha mais um dom, era cantora: tinha voz afinada, foi descoberta por um produtor argentino e foi viver em Buenos Aires, mas no verão batia ponto na praia, só que agora já se transformara em uma diva negra. Não era mais mal ajambrada, pelo contrário, usava umas cangas lindas. Os cabelos muito bem tratados, Pérola estava no auge da mocidade e dos sonhos. A praia inteira acompanhou o desabrochar da Pérola Negra. Não era mais simplesmente Pérola. Acrescentou o Negra ao Pérola. No último verão que passei na praia, ela já não vendia mais na areia. Continuava trabalhando, mas como era uma estrela, abriu loja com salão de beleza anexo e vendia panos e objetos de decoração africanos; suas raízes negras. Me contou que estava feliz e casando com um conde italiano. Essa é outra que sabia o que queria da vida. Há dois verões que não sei de Pérola Negra, mas até onde sei ela ia casar com o conde e ia levar na sua bagagem para Roma, a mãe e duas irmãs, tão decentes quanto Pérola Negra, que era respeitada no seu trabalho honesto e preocupada com o dia seguinte. A Pérola Negra foi longe. Hoje é condessa Pérola e foi morar na Itália com o seu conde. Não foi fazer programa. Até imagino Pérola fazendo suas compras na Via Del Condote, na Viale Pavioli, passeando pela Piazza de Espanha, Piazza Navona, visitando o Panteão, jogando moeda na Fontana Di Trevi. Hoje não deve usar mais suas cangas coloridas ou trajes africanos, mas deve estar elegantérrima percorrendo as sete colinas de Roma. Já deve ter tirado milhares de fotografias na Coluna de Trajano, no Templo de Vesta, no Coliseu Romano e já deve ter colocado suas mãos na Boca da Verdade, sem medo de ser abocanhada por ela. Nas horas vagas deve andar de motoneta pela Cidade Eterna. Mora em palácio e tudo dentro dos conformes. Felicidades Pérola. Você merece. Fez por merecer. Quem sabe ainda vou encontrar Pérola em Roma, com loja montada, na Piazza de Espanha. É vero!!!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Marísia

Marísia conheceu Jorge no clube. Naquela época a vida social era restrita, ou se recebia em casa, sempre com o consentimento dos pais, ou as famílias freqüentavam os clubes, onde gerações e gerações tiveram o orgulho de fazer parte de tão nobres tradições. E foi uma época em que se davam valor às tradições. Não adiantava ter dinheiro, para fazer parte de uma sociedade havia um conselho que se reunia e aprovava ou desaprovava o cidadão. Foi o tempo das famosas bolas pretas e certas famílias algumas vezes, para se proteger, procuravam um amigo influente que fizesse parte da diretoria para sondar o terreno e só então entravam com a proposta de sócio. Nesses clubes corria a vida, era ali que os jovens se encontravam, namoravam e casavam; grandes negócios eram fechados em suas mesas, grandes histórias suas paredes guardavam. Pois Marísia fazia parte desta sociedade. Não era moça rica, era família de tradição. Jorge era rico de família riquíssima e hebraico. Apaixonaram-se e foram felizes por algum tempo. Marísia conheceu o mundo, teve apartamento em Paris, casa em Miami, viviam em trânsito. Da união nasceram três filhas que foram criadas com toda pompa e circunstância. Quando completaram dez anos de casamento, Jorge chamou a dona de uma concessionária e encomendou um carro para dar de presente para Marísia, exigindo que a BMW fosse entregue embalada para presente. A avenida foi fechada, o trânsito foi desviado para a marginal só para abrir espaço para o presente ser entregue. Marísia, da sacada de sua cobertura onde acontecia a festa, viu o guindaste levantar o seu presente devidamente empacotado para presente e ser pousado em sua calçada. E o resto da noite o trânsito continuou impedido na avenida. Isso não causou constrangimento na família porque eles podiam tudo. Eles eram os donos do dinheiro. O bairro mais chic da cidade foi obra deles e carrega o nome da família. Nas férias, Marísia e o marido estavam sempre em dúvida cruel: não sabiam se aproveitavam o iate da família, ou se passavam em Miami onde a casa deles tinha aeroporto particular. O jatinho com direito a piloto particular ficava no hangar do condomínio. Na cidade onde moram fica no aeroporto. Eles estavam pensando em dragar um pedaço do mar e fazer um aeroporto particular. Isto é o que eu penso, afinal quem pode tudo... Pois como tudo que sobe, desce, o amor do casal não resistiu ao tempo. Na última mudança de residência eles deram uma festa que ficou na historia. A festa não foi na nova residência, foi na cobertura onde foi entregue o mimo de aniversário de casamento. O novo proprietário da cobertura estava presente e aproveitou o evento para batizar o seu novo imóvel. Todos os convivas receberam uma garrafa de champagne para chacoalhar a garrafa e benzer as paredes. No dia seguinte a esse acontecimento, a avenida amanheceu cheia de garrafas que foram atiradas da cobertura. A beira mar foram encontradas garrafas fechadas que algum convidado deve ter deixado para apanhar mais tarde e acabou esquecendo. Houve a mudança de residência e o casamento acabou. Na partilha sua ex ficou com a menor parte, mas foi o suficiente para garantir sua vida e seus descendentes. As próximas gerações estão garantidas, Isso não é verdade e ela não se conforma. O padrão de vida encolheu e hoje quem está se divertindo na Disneylândia, que foi a vida da família, é a outra que estava já algum tempo na sala de espera, esperando o casamento do casal acabar para entrar. Pois a nova mulher entrou com toda pompa e com uma diferença. Sabendo o que pode acontecer, pois se Jorge não foi tão legal com Marísia, ela sabe que ele pode vir a ser desleal com ela que entrou de alegre na vida animadíssima do casal. A primeira providência ela já tomou, alegando ter dificuldade para engravidar, resolveu fazer barriga de aluguel e uma parente próxima está gestando por ela. São trigêmeos, segundo a fonte informativa, ela não pode perder as formas nem o tempo precioso carregando filho, e que três é um número de filhos para garantir o futuro dela. Moça prática. Por enquanto ela já garantiu duas coberturas na Avenida Beira Mar e três casas, duas em Miami e outra no bairro que leva o nome da família. E também uma soma, em espécie, em paraíso fiscal que ela não revela. Quanto a Marísia, esta continua presa pelos laços sagrados do divórcio. Tem uma cláusula que ela não notou. Marísia acreditava em Jorge. Marísia é apenas procuradora das filhas. Isso o advogado dela não notou. Ele foi indicado pelo Jorge. Ela não sabia que o casamento dela foi em regime de separação de bens. O advogado tratante, se Marísia se casar novamente ela perde tudo e todos os bens adquiridos após o casamento de Marísia e Jorge foram adquiridos em nome das empresas da família de Jorge. Naquela família ninguém é dono de nada e todos são donos de tudo. Isso Marísia também ignorava. Sobrou para Marísia dormir de cabeça quente todas as noites de sua vida. Nada de jogar garrafas de champagne da viúva pela sacada. Não sobrou nem para o próseco. Se duvidar não sobrou nem para a sidra. As meninas de Marísia contam entre treze e dezoito anos, e como estavam se sentindo a parte traída na separação dos pais, pediram para Marísia providenciar uma festa de confraternização entre as amigas delas. Marísia chamou a promotora de eventos deles e encomendou uma pequena festa, sem bebidas alcoólicas, só para os íntimos. A festa foi para cem jovens que na falta de bebidas alcoólicas, assaltaram a adega de Marísia e como não gostam de beber vinho resolveram rememorar as antigas festas dos pais e atiravam as garrafas do vinho do papa na avenida, até a polícia ser acionada. O prejuízo foi enorme, e felizmente o saldo foram só os carros que estavam estacionados danificados. E a avenida foi fechada novamente para evitar uma tragédia. Eça de Queiroz tinha razão: quem sai aos seus não degenera.

Dona Luzmarina

Dona Luzmarina, senhora educada, bem nascida, elegante, de uma moral acima de qualquer suspeita. Ela é baixinha, loirinha, de cabelos de caracóis e lindos olhos azuis. Foi casada durante cinqüenta anos com um senhor educado, culto, elegante e lindo, e que amava dona Luzmarina acima de todas as coisas. O casal tão distinto era requisitado para todas as ocasiões, do nascimento ao funeral eles sempre marcaram presença. O ramo deles era hotelaria; uma cadeia de hotéis dos melhores da época. Eles possuíam um casal de filhos tão encantadores quanto seus pais. Dona Luzmarina percorria todos os hotéis da família para ver se estava tudo dentro dos conforme. Fazia questão de ir pessoalmente dar cursos de camareira, de governanta, cuidava da roupa de cama e banho do hotel, que deveria estar sempre impecável. Ela se empenhava e tinha um detalhe: como o marido era um homem muito bonito, ela fazia questão de frisar: ele só tem olhos para mim. E de fato era verdade. Nas bodas de ouro a festa foi linda. O avião particular cruzou os céus com uma faixa com essas palavras: obrigado minha amada Luzmarina pelos cinqüenta anos de felicidade! Eu ate amo! E quando o avião sobrevoou a casa de dona Luzmarina descarregou uma tonelada de rosas vermelhas; eram tantas rosas que dona Luzmarina ficou soterrada e o marido gritava: Luz da minha vida, não, não, não foi essa a minha intenção! E depois de muito procurar, ele quase soterrado, encontrou a luz da vida dele e dias depois ele veio a óbito. Foi a emoção, todos comentavam. Viúva, dona Luzmarina trabalhava nos hotéis em media 16 horas por dia, só para esquecer o seu grande amor. Passado o período de luto fechado, dona Luzmarina recebeu a visita de um filho ilustre da terra, que era juiz de direito. O juiz chegou em casa de dona Luzmarina, ela não se encontrava, mas como o hotel onde ela estava era perto sua casa (casa onde ela morou cinqüenta anos com a família), a empregada foi chamá-la e ela veio correndo com seus passinhos miúdos e o saltinho, toc, toc, toc, toc. Que grande emoção ver o menino que praticamente cresceu com seus filhos e tratou de mandar servir um caprichado lanche e a empregada se esmerou. E conversa vai, conversa vem, dona Luzmarina pediu licença para tão ilustre visitante, e foi conferir se a mesa estava de acordo. Nesse meio tempo, o meritíssimo juiz colocou a cabeça no vão da porta e perguntou: onde é o banheiro? E já foi entrando, pois ele passou a infância brincando com os filhos da dona da casa, da qual ele conhecia todos os caminhos. A mesa estava perfeita para o ilustre visitante, só que ele esqueceu de sair do banheiro. Lá pelas tantas, ela muito sem jeito, mandou a empregada chamar o moço. E foi a empregada se aproximar da porta que esta se abriu e o visitante saiu do banheiro, nu. Isso mesmo, despido, sem roupa, exposto totalmente. Dona Luzmarina dizia: meu filho acho que você esqueceu de alguma coisa. E a empregada correu para apanhar um lençol, mas quando regressou com o lençol ele já estava sentado vis a vis com dona Luzmarina que estava pasma, em estado de choque. E ele lanchando e conversando. Dona Luzmarina, discretamente, chamou a empregada e deu ordens para que ela fosse buscar a senhora tia do meritíssimo juiz pelado. Mas a senhora custou a chegar e o visitante terminado o lanche se levantou, beijou a mão de dona Luzmarina, agradeceu a atenção e o lanche delicioso. Pegou o paletó, a pasta que estava recheada com suas roupas, atravessou o vestíbulo, abriu a porta e saiu pelo lindo jardim. Abriu a porta de seu carro, deu um adeusinho e foi embora. Dona Luzmarina até hoje anda zureta, zureta, e as amigas de jogo perguntam, será que é da idade? Pois ela mudou. Não foi mais cuidar dos hotéis e a empregada está proibida de abrir a porta para qualquer pessoa, sob pena de ser despachada para Deus me livre. Quando dona Luzmarina saía era para ir a missa ou jogar com as amigas, fora o trabalho do hotel. No hotel ela nunca mais apareceu. Jogar ela vai, mas a missa não, porque durante a missa ela começou a ver o padre nu, rezando missa.

Eva Maria

Eva Maria sempre teve uma personalidade forte. Nasceu sabendo o que não desejava da vida; filha de mãe prepotente e pai submisso. Eva Maria era uma mocinha bonita, culta e educada. Casou com o primeiro namorado, mas não foi o único. Foi pedida em casamento três vezes, mas aos quinze anos ela chegou para a futura sogra, pessoa que acabara de conhecer, e vaticinou: eu vou me casar com seu filho. A senhora em questão, como não era boba, e era muito ligada ao filho caçula, que é bem provável que tenha sido conseqüência do último canto do cisne, respondeu: com esse não, case com o irmão dele. Que era mais velho e traste. Eva Maria estava decidida; namoraram sete anos. Eva esperou o moço estudar e começar a trabalhar. O casamento foi tão lindo que até hoje se comenta a suntuosidade da igreja e o vestido na noiva em estilo medieval. Eva Maria se manteve virgem como convinha a uma moça da época. A avó comentava, menina deve merecer o véu. Pois ela mereceu, só não mereceu o que veio depois, mas isso é outra história. O começo do casamento foi igual a todos, muita luta, juntaram miséria com miséria. O noivo não era rico. Eva Maria era rica, mas era tudo emprestado. Quando casou não levou nem suas jóias pessoais. Sua mãe ficou com tudo e como não era muito, Eva Maria não deu bola. Até o enxoval de Eva Maria acabou voltando, aos poucos, para a casa de sua mãe, principalmente as toalhas de banho que ficavam esquecidas na casa da mãe e nunca mais voltaram. Aliás, a mãe de Eva Maria sempre foi fascinada por toalhas de banho que não eram dela. Deve ser algum fetiche da distinta senhora. Eva Maria, por conta das dificuldades, logo começou a costurar seus próprios vestidos e sempre com muito bom gosto. Ela sempre gostou de andar na moda, o corpinho ajudava e as medidas de miss. Tudo lhe caia bem. Eva Maria teve roupas que ficaram na história, não digo as roupas de festas que eram fabulosas, mas o dia a dia também. Nos anos 70 foi moda macacão, pois Eva Maria mandou confeccionar um macacão de malha preto, estilo segunda pele, e duas saias que sendo uma verde de bolas pretas e Eva Maria arrasou. Quando chegaram os filhos, Eva Maria passou a costurar para a família, foram anos de lutas e por conta de Eva Maria ganhar dinheiro na hora do aperto, pois Eva Maria pintava peças de gesso e vendia. Pintava como ninguém máscaras venezianas e os presépios, então... Pareciam verdadeiras obras de arte. Ela não saía vendendo, ela largava na mãos das manicures que se encarregavam das vendas e ainda faturavam um dinheirinho extra. Fabricou tantas flores para vestidos que certa ocasião admirando sua pinacoteca ficou maravilhada pois a maioria de suas telas foram fruto do seu rico dinheirinho. Depois Eva Maria passou a ganhar muito dinheiro. Com os filhos já crescidos dava festas de arromba. Da decoração aos comes e bebes tudo por sua conta. Enfeitou a casa e a vida. Abriu um canil e passou a vender cães de raça rara, pois seus canil era muito conhecido e conceituado. Montou fábrica de vestuário e foi um sucesso. Com o dinheiro ganho bancou baile de debutante, festa de 15 anos, a vida social intensa dos filhos, colégio dos filhos, e passou anos sem depender de um tostão do marido. O que é curioso é que o marido de Eva Maria tinha uma teoria muito própria a respeito do dinheiro. Tudo que era dele era dele e o que era de Eva Maria também era dele, mas Eva Maria nunca se preocupou muito, sabia que se bastava. Enfeitou a casa, a vida, filhos e fez deles gente. E o marido, cansado de uma mulher tão eficiente, partiu para o território alheio e arranjou uma amante com nome de santa que logo foi trocada por outra com nome de filha da outra. Resultado, a santa revoltada ligou para Eva Maria e contou tudo, tudinho. Eva Maria chorou, esperneou, e pensou até em arranjar uma galharia de alce para ele. Até já se imaginava dando assunto para a cidade. E a cidade inteira se dirigindo a ele, como vai dr. Alce? Dona Eva Maria já trocou a porta para o senhor passar? Imagine o tamanho da galharia. Mas como ela tem muita personalidade, achou que essa vingança seria muita baixaria com os seus filhos e deixou o dito pelo não dito. Ela suportou com muita elegância a sua galharia. É a dignidade das mulheres traídas. E não foram mais felizes para sempre.

Flavinha e Paloma

Flavinha é o protótipo da mulher realizada. Tem um marido exemplar, tipo metade da laranja. O único senão foi receber a noticia de que seu marido exemplar vai passar uma longa temporada fora, a negócios. Explica-se, é a primeira vez que o casal não vai viajar junto. Os filhos estão em idade escolar. Ela nunca fumou, não toma calmantes, nem sabe o que é isso. Ela é do tipo ame e cure sua vida. Família certinha. Como estava triste, ligou para sua irmã Paloma para saírem juntas. Convite feito, convite aceito. As duas almoçaram juntas, foram ao shopping fazer umas comprinhas e no final da tarde sua irmã lembrou de dar uma esticada em casa de uma amiga. Flavinha concordou. A casa da amiga era uma casa muito mal conservada e desarrumada. A dona da casa estava com olhos vermelhos e não dizia coisa com coisa. Lá pelas tantas chegou o filho da dona da casa e resolveu mostrar para as visitantes os produtos para emagrecer que ele vendia. Ele puxou uma porta para fazer as vezes de um quadro e com o pincel atômico fazia desenhos do interior do corpo humano e dava explicações científicas. Ele acabara de fazer o curso de vendas na empresa que representava e usou Flavinha e sua irmã como cobaia. E como as duas visitantes não compraram nada, ele ofereceu um cigarro e Paloma, para surpresa de Flavinha, praticamente atirou-se para apanhar o tal cigarrinho de cheiro esquisito. A dona da casa entrou em um quarto e trouxe uma quantidade de cachecol de lã para vender. Como estavam no inicio da primavera elas não compraram os cachecóis. Pois a dona da casa não desistiu e tentou vender uma caixa de doces mineiros, cada caixa com 60 doces caseiros. Flavinha explicou que estava fazendo dieta. O filho da dona da casa resolveu fazer demonstração dos produtos mineiros. Flavinha, já desesperada, comprou um vidro de doce de leite com ameixas. O cheiro do cigarro estava lhe dando dor de cabeça. Flavinha foi para a varanda e o dono da casa ofereceu um cigarrinho novamente e novamente ela explicou que não fumava. Se despediram e saíram. Chegando em sua casa Flavinha colocou o tal doce na prateleira da cozinha e foi cuidar do jantar com a empregada que queria servir o tal doce de sobremesa, mas acabou servido o doce predileto do marido de Flavinha. Tocou o telefone no dia seguinte cedo, era Paloma que desesperada pediu para Flavinha não abri o doce porque aquele lote não era para vender, foi engano e o lote estava estragado. Não deu meia hora e Paloma apareceu levar o doce. Trouxe consigo uma pinça grande e uma espátula. Abriu o vidro, com a espátula afastou o doce e com a ajuda de uma pinça alcançou um invólucro que retirou delicadamente de dentro do vidro de doce, lavou o tal secando com cuidado, depois examinou contra luz. Flavinha vendo toda aquela operação sem entender nada falou para Paloma: você me disse que ficaria para o almoço, pois vou mandar preparar o teu prato predileto. Paloma agradeceu e disse que estava apressada e viu um pote de bicarbonato entre os temperos na prateleira da cozinha e colocou junto com o tal invólucro e saiu sem se despedir. Dias depois Flavinha leu nos jornais que a policia estava a procura de um grupo de senhoras que estavam traficando drogas dentro de vidros de doces caseiros. Flavinha lembrou do tal invólucro dentro do vidro de doce e também de ter visto o vidro com doce na lata de lixo. Paloma levou apenas o que lhe interessava. Flavinha até hoje treme nas bases só de pensar que poderia ter sido envolvida e em como ficaria sua família tão certinha, tudo tão perfeito. Flavinha ligou para Paloma, a empregada disse que dona Paloma estava fora do país por um longo tempo.