quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Marísia

Marísia conheceu Jorge no clube. Naquela época a vida social era restrita, ou se recebia em casa, sempre com o consentimento dos pais, ou as famílias freqüentavam os clubes, onde gerações e gerações tiveram o orgulho de fazer parte de tão nobres tradições. E foi uma época em que se davam valor às tradições. Não adiantava ter dinheiro, para fazer parte de uma sociedade havia um conselho que se reunia e aprovava ou desaprovava o cidadão. Foi o tempo das famosas bolas pretas e certas famílias algumas vezes, para se proteger, procuravam um amigo influente que fizesse parte da diretoria para sondar o terreno e só então entravam com a proposta de sócio. Nesses clubes corria a vida, era ali que os jovens se encontravam, namoravam e casavam; grandes negócios eram fechados em suas mesas, grandes histórias suas paredes guardavam. Pois Marísia fazia parte desta sociedade. Não era moça rica, era família de tradição. Jorge era rico de família riquíssima e hebraico. Apaixonaram-se e foram felizes por algum tempo. Marísia conheceu o mundo, teve apartamento em Paris, casa em Miami, viviam em trânsito. Da união nasceram três filhas que foram criadas com toda pompa e circunstância. Quando completaram dez anos de casamento, Jorge chamou a dona de uma concessionária e encomendou um carro para dar de presente para Marísia, exigindo que a BMW fosse entregue embalada para presente. A avenida foi fechada, o trânsito foi desviado para a marginal só para abrir espaço para o presente ser entregue. Marísia, da sacada de sua cobertura onde acontecia a festa, viu o guindaste levantar o seu presente devidamente empacotado para presente e ser pousado em sua calçada. E o resto da noite o trânsito continuou impedido na avenida. Isso não causou constrangimento na família porque eles podiam tudo. Eles eram os donos do dinheiro. O bairro mais chic da cidade foi obra deles e carrega o nome da família. Nas férias, Marísia e o marido estavam sempre em dúvida cruel: não sabiam se aproveitavam o iate da família, ou se passavam em Miami onde a casa deles tinha aeroporto particular. O jatinho com direito a piloto particular ficava no hangar do condomínio. Na cidade onde moram fica no aeroporto. Eles estavam pensando em dragar um pedaço do mar e fazer um aeroporto particular. Isto é o que eu penso, afinal quem pode tudo... Pois como tudo que sobe, desce, o amor do casal não resistiu ao tempo. Na última mudança de residência eles deram uma festa que ficou na historia. A festa não foi na nova residência, foi na cobertura onde foi entregue o mimo de aniversário de casamento. O novo proprietário da cobertura estava presente e aproveitou o evento para batizar o seu novo imóvel. Todos os convivas receberam uma garrafa de champagne para chacoalhar a garrafa e benzer as paredes. No dia seguinte a esse acontecimento, a avenida amanheceu cheia de garrafas que foram atiradas da cobertura. A beira mar foram encontradas garrafas fechadas que algum convidado deve ter deixado para apanhar mais tarde e acabou esquecendo. Houve a mudança de residência e o casamento acabou. Na partilha sua ex ficou com a menor parte, mas foi o suficiente para garantir sua vida e seus descendentes. As próximas gerações estão garantidas, Isso não é verdade e ela não se conforma. O padrão de vida encolheu e hoje quem está se divertindo na Disneylândia, que foi a vida da família, é a outra que estava já algum tempo na sala de espera, esperando o casamento do casal acabar para entrar. Pois a nova mulher entrou com toda pompa e com uma diferença. Sabendo o que pode acontecer, pois se Jorge não foi tão legal com Marísia, ela sabe que ele pode vir a ser desleal com ela que entrou de alegre na vida animadíssima do casal. A primeira providência ela já tomou, alegando ter dificuldade para engravidar, resolveu fazer barriga de aluguel e uma parente próxima está gestando por ela. São trigêmeos, segundo a fonte informativa, ela não pode perder as formas nem o tempo precioso carregando filho, e que três é um número de filhos para garantir o futuro dela. Moça prática. Por enquanto ela já garantiu duas coberturas na Avenida Beira Mar e três casas, duas em Miami e outra no bairro que leva o nome da família. E também uma soma, em espécie, em paraíso fiscal que ela não revela. Quanto a Marísia, esta continua presa pelos laços sagrados do divórcio. Tem uma cláusula que ela não notou. Marísia acreditava em Jorge. Marísia é apenas procuradora das filhas. Isso o advogado dela não notou. Ele foi indicado pelo Jorge. Ela não sabia que o casamento dela foi em regime de separação de bens. O advogado tratante, se Marísia se casar novamente ela perde tudo e todos os bens adquiridos após o casamento de Marísia e Jorge foram adquiridos em nome das empresas da família de Jorge. Naquela família ninguém é dono de nada e todos são donos de tudo. Isso Marísia também ignorava. Sobrou para Marísia dormir de cabeça quente todas as noites de sua vida. Nada de jogar garrafas de champagne da viúva pela sacada. Não sobrou nem para o próseco. Se duvidar não sobrou nem para a sidra. As meninas de Marísia contam entre treze e dezoito anos, e como estavam se sentindo a parte traída na separação dos pais, pediram para Marísia providenciar uma festa de confraternização entre as amigas delas. Marísia chamou a promotora de eventos deles e encomendou uma pequena festa, sem bebidas alcoólicas, só para os íntimos. A festa foi para cem jovens que na falta de bebidas alcoólicas, assaltaram a adega de Marísia e como não gostam de beber vinho resolveram rememorar as antigas festas dos pais e atiravam as garrafas do vinho do papa na avenida, até a polícia ser acionada. O prejuízo foi enorme, e felizmente o saldo foram só os carros que estavam estacionados danificados. E a avenida foi fechada novamente para evitar uma tragédia. Eça de Queiroz tinha razão: quem sai aos seus não degenera.

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